Saudade não precisa doer

Quando estamos de bem com o passado, conseguimos olhar para trás com a sensação de ter vivido intensamente. Só não podemos deixar que ela ocupe todos os espaços do presente
Quando eu era adolescente, registrava tudo num diário. Recheava as folhas com detalhes cotidianos, segredos, confissões, frases bonitas e até guardanapos dos cafés por onde passava. Temia que se algo escapasse eu não pudesse recuperar mais. Mas ali a minha história estava protegida. Assim como estavam bem guardados num baú dourado os souvenirs que trazia de viagens, fotos, cartas e cartões-postais. Com o tempo muita coisa se perdeu, mas ainda conservo boa parte dessas recordações. Elas permanecem no meu quarto, agora em uma caixa de madeira com estampa floral. Cada vez que a abro, meu mundo pretérito se revela em datas, caligrafias, mensagens bem-humoradas, desenhos, paisagens e perfumes. É quando entro no meu recanto particular de saudades. Talvez ninguém consiga falar dessa companheira que nos segue por toda a vida com tanta maestria como os poetas. “De que são feitos os dias? De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”, disse Cecília Meireles. Assim é a saudade. Uma ausência presente. Uma ponte que nos oferece acesso livre ao que há de mais intenso e marcante no nosso passado. Quando ela nos visita, traz consigo abraços, olhares, conversas, carícias, promessas, cenários, cheiros, músicas e sorrisos. Surge como um filme no qual somos protagonistas, com imagens vivas e sons nítidos que nos fazem reviver momentos especiais guardados na memória. O vocábulo saudade vem do latim solitas, que significa solidão. Sofreu variações para soidade, soedade ou suidade até chegar à forma como o conhecemos SAUDADES. Já foi considerado algum tempo atrás, a sétima palavra mais difícil de se traduzir, mas exprime um sentimento universal. A saudade nos encanta porque funciona como uma máquina do tempo. Ela nos leva ao encontro de pessoas, mesmo que não possamos mais revê-las, nos transporta a lugares e épocas distantes e reuniu diferentes filósofos que pesquisaram o sentimento a fundo. Um dos que exploraram essa característica atemporal da saudade foi o português Eduardo Lourenço, que a definiu como uma sensação-sentimento que o homem experimenta de arder no tempo sem se consumir. Para o filósofo, a saudade tem um relógio próprio, que não obedece qualquer cronologia. É isso o que causa a impressão de que ela é eterna e a faz brilhar no coração de todas as ausências. Não é por acaso que gostamos de sentir saudade, mesmo que ela nos deixe tristes, com uma ponta de solidão. “Existe uma tendência humana de repetir vivências prazerosas. Quando isso acontece, reativamos experiências infantis muito primitivas de completude, satisfação e felicidade”. Apesar de nos permitir reviver tempos felizes, é importante não nos deixarmos envolver demais por esse sentimento, pois, dependendo da intensidade, ele pode fechar nossos olhos para o presente. Saudade é um suave fumo do fogo do amor que qualquer breve ausência basta para alimentar.
O ano começa e termina amores vêm e vão, amigos surgem e desaparecem, cursos se iniciam e acabam, festas e viagens têm começo e fim. Deixamos e carregamos algo de nós em tudo o que vivemos, em cada ciclo que fechamos. Há pessoas que preferem parar em algum ou alguns desses ciclos, achando que jamais irão viver algo com o mesmo sabor. O que está por trás da atitude de querer morar no passado muitas vezes é um grande vazio existencial. Como a imperfeição do presente é desconfortável, preferem a zona de conforto do que já se foi valorizando o que aconteceu de bom e, jogando no lixo o que foi ruim. Assim criam sua própria receita para suportar os aborrecimentos do dia a dia. É exatamente isso o que acontece com os nostálgicos. De origem grega essa palavra expressa uma tristeza profunda causada pelo afastamento da pátria. Essas pessoas se sentem desse jeito. Fora do seu lugar. Na nostalgia, a pessoa revive o passado acentuando os aspectos positivos dele, com a idéia de que perdeu algo que não pode recuperar. Ela afirma que o passado foi e continua sendo melhor que o presente, como um momento perfeito ao qual nunca poderá retornar a não ser por lampejos de lembrança. Há um brilho ligado a uma experiência única, intensa. Algo relacionado à plenitude, ao sublime, ao divino. Mas felizmente há remédio para a nostalgia que é parente próxima da saudade. Aceitar a transitoriedade da vida é o segredo para sentir uma saudade boa, aquela que por um instante causa palpitação, uma sensação de vácuo que nos faz suspirar e entrar em transe, mas que quando passa deixa com um sorriso no rosto. “Há um lado nefasto da saudade que se aproxima da melancolia. Ela é vivida como algo dilacerante, que desestabiliza e consome a pessoa por inteiro. É um sofrimento quase insuportável. É preciso fazer um trabalho de luto para que ela fique mais leve. E entender que a vida se transforma a cada momento. É importante desapegar, deixar ir embora, não reter o que se perdeu. Rupturas acontecem diariamente à nossa revelia, e vão continuar acontecendo. Quanto melhor lidamos com a idéia da impermanência das experiências mais facilidade teremos de viver uma saudade gostosa, lembrem-se sempre disso …



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>