A transformação do Saci

A transformação do Saci

Por Marcos De Brito

Quando narramos histórias do nosso folclore, as imagens das criaturas que habitam o imaginário popular estão tão enraizadas que não paramos para pensar como eram diferentes na época em que foram criadas.

A verdade é que — tanto deuses como criaturas da mais variadas mitologias — todas se transformam de algum modo para se adequarem aos novos tempos e a um novo público.

Poseidon, o rei do mares, era visto pelos gregos como um deus enfurecido, que afundava embarcações, enquanto Netuno, o equivalente romano, era tido como benevolente, que presenteava com riquezas vindas do mar. Ambos são a mesma divindade, a diferença é que os gregos não haviam dominado a náutica como os romanos. Os naufrágios atribuídos à fúria de Poseidon eram culpa da inabilidade de navegarem por águas tormentosas, e os presentes de Netuno eram os espólios das conquistas do Império Romano.

Em terras brasileiras, um bom exemplo dessa metamorfose é a figura do Saci. Sua verdadeira origem — indígena — era sobre um menino endiabrado e de rabo, que atrapalhava os invasores que pisavam na floreta. Foi uma forma encontrada pelos nativos para proteger seu território contra os homens brancos.

A aparência do Saci mudou conforme foram inseridos novos elementos em nossa cultura. O garoto negro, que perdeu a perna em uma disputa de capoeira, e o cachimbo foram heranças do povo africano. Já o gorro vermelho com poderes mágicos, veio da cultura europeia.

A oralidade sempre foi a grande fonte de divulgação das nossas lendas. Os personagens folclóricos ganhavam força nas rodas de fábulas em torno da fogueira e nas histórias dos nossos avós. Com a modernidade, esse costume foi se perdendo, no entanto existem escritores que — felizmente — contribuem para que o Saci não desapareça do nosso patrimônio cultural. Graças a nomes como Monteiro Lobato, Câmara Cascudo, Maurício de Souza e Ziraldo, esse personagem saiu das narrativas vocais para ganhar as páginas de livros, ilustrações e obras audiovisuais.

É inegável a importância que Monteiro Lobato trouxe para o Saci ao adaptá-lo para o universo infantil com o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ele foi o maior responsável pela difusão desse folclore, tendo inspirado diversos outros artistas a narrarem suas próprias histórias sobre o menino travesso.

Nos dias de hoje, há uma tendência pelo resgate das nossas lendas através de uma ótica mais adulta, que busca repaginar os personagens inserindo-os em épocas da nossa História que justifiquem a sua existência. Em meu livro O Escravo de Capela, por exemplo, a fábula do Saci ganhou contornos de drama histórico com pinceladas fortes de terror ao ter retratado a época da escravidão do Brasil colônia como tema principal para a origem do mito.

A preocupação em manter viva nossa herança cultural não se restringe apenas à literatura. O Governo Brasileiro, em 2005, criou o Dia Nacional do Saci com o objetivo de darmos mais valor ao nosso folclore. Foi escolhido o dia 31 de outubro (mesma data do Dia das Bruxas) no intuito de celebrarmos nossa tradição, minimizando a influências de comemorações estrangeiras.



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